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Notas de programa Re:Flexus Trio

14 de novembro · 21h30

Cineteatro Municipal de Castro Verde

Neste concerto, a música de câmara encontra-se com a tradição musical alentejana. As duas primeiras peças são interpretadas em conjunto pelo Re:flexus Trio – clarinete, viola de arco e piano – e pelos Moços da Viola, com a viola campaniça. O programa começa com melodias do cancioneiro regional e passa depois a duas obras escritas para a formação do trio. A mudança de repertório convida-nos a escutar como diferentes instrumentos e linguagens podem partilhar o mesmo espaço musical.

Três modas tradicionais

  • Na Várzea da Ribeirinha
  • Ó, águia, que vais tão alta
  • Bem podia a andorinha

Tradicional

As três modas pertencem ao património musical alentejano, transmitido e recriado por intérpretes e comunidades ao longo do tempo.

A interpretação conjunta aproxima a viola campaniça – instrumento profundamente ligado à identidade musical da região – das sonoridades do clarinete, da viola de arco e do piano. As modas são aqui ponto de partida para uma escuta partilhada entre tradição e música de câmara, memória coletiva e interpretação individual.

Aria a tre con variazione

Joly Braga Santos (1924–1988)

José Manuel Joly Braga Santos nasceu em Lisboa e iniciou os estudos musicais ainda criança. Formou-se no Conservatório Nacional, onde estudou violino, piano e composição, tendo sido aluno de Luís de Freitas Branco, uma das figuras centrais da música portuguesa da geração anterior. A relação entre ambos foi decisiva para a sua formação: Freitas Branco reconheceu-lhe cedo o talento e acompanhou-o como mestre. Joly Braga Santos viria a desenvolver uma carreira multifacetada como compositor, maestro, professor e crítico musical.

A sua obra abrange cerca de 110 títulos, entre música sinfónica, ópera, música coral e de câmara. É particularmente conhecido pelas seis sinfonias, quatro das quais escreveu ainda na juventude. Nelas, cruzou formas amplas da tradição sinfónica com influências da polifonia renascentista e da música tradicional portuguesa. Mais tarde, a sua linguagem incorporou recursos do modernismo europeu, incluindo maior cromatismo. Foi também um ativo divulgador de música contemporânea, maestro de várias orquestras e membro fundador da Juventude Musical Portuguesa. Em 1981, recebeu a Ordem de Santiago da Espada pelo mérito artístico.

Composta em 1984, Aria a tre con variazione pertence à sua produção de maturidade e foi escrita para clarinete, viola e piano. O título descreve a ideia que sustenta a obra: uma melodia de carácter cantabile apresentada e transformada ao longo de variações. Os três instrumentos participam numa conversa em que as linhas melódicas passam de uns para os outros, enquanto o piano contribui para o enquadramento harmónico e rítmico. A peça revela a atenção de Joly Braga Santos à expressividade e à cor instrumental, também presente na sua música de câmara.

Trio em Lá Maior, Op. 264

Carl Reinecke (1824–1910)

Carl Heinrich Carsten Reinecke nasceu em 1824, em Altona, então cidade independente e hoje parte de Hamburgo. Aprendeu música com o pai, professor, e revelou-se cedo como pianista: na adolescência já se apresentava em público e, em 1843, iniciou uma série de viagens de concerto. Em Leipzig, entrou em contacto com Felix Mendelssohn e Robert Schumann; mais tarde, trabalhou como pianista da corte em Copenhaga e ocupou cargos de ensino e direção musical em várias cidades alemãs.

A sua carreira ficou sobretudo ligada a Leipzig. Entre 1860 e 1895, dirigiu os concertos da Orquestra do Gewandhaus e, paralelamente, ensinou piano e composição no Conservatório de Leipzig, do qual foi diretor entre 1897 e 1902. Teve uma influência considerável como professor – entre os seus alunos contaram-se Edvard Grieg e Arthur Sullivan – e construiu um catálogo vasto, que inclui música orquestral, ópera, obras para piano e música de câmara. A sua escrita combina domínio formal e clareza com uma linguagem ligada à tradição romântica de Mendelssohn e Schumann. Morreu em Leipzig, em 1910.

Publicado em 1903, o Trio em Lá Maior, Op. 264 é uma das últimas composições de Reinecke. Nesse mesmo ano, aos 79 anos, o compositor apresentou a obra no Gewandhaus de Leipzig, ao piano, numa das suas derradeiras aparições públicas. Para clarinete, viola e piano, o trio revela o interesse de Reinecke por combinações instrumentais menos comuns.

A obra divide-se em quatro andamentos: Moderato. Allegro, Intermezzo. Moderato, Legende. Andante e Finale. Allegro moderato. O primeiro começa com uma introdução moderada antes de ganhar movimento; o Intermezzo mantém uma atmosfera mais recolhida e pastoral. No terceiro andamento, Legende, uma melodia lenta e expressiva ocupa o centro da peça. O Finale contrasta com os momentos anteriores, recuperando energia e movimento. Ao longo do trio, clarinete, viola e piano alternam entre diálogo próximo e contraste de timbres.

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