Associação Portuguesa das Artes e da Cultura

Encontros de Música de Castro Verde

1ª EDIÇÃO 2026
14 NOV, 20 e 21 NOV

RE:Flexus Trio

14 novembro
21h30
Cineteatro Municipal de Castro Verde

CONCERTO

Re:Flexus Trio

Fundado em 2018, na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto, o Re:Flexus Trio é formado por Ana Sofia Matos (clarinete), Catarina Gonçalves (viola d’arco) e Maria Isabel Mendonça (piano). O grupo dedica-se sobretudo à interpretação de repertório romântico e contemporâneo, explorando as possibilidades musicais desta formação de câmara.

Desde a sua estreia no Teatro Helena Sá e Costa, o trio tem desenvolvido uma atividade regular em Portugal e no estrangeiro, com participações no Festival Internacional de Música da Primavera de Viseu, no Festival Internacional de Música Contemporánea de Madrid e no Festival Música Viva, em Lisboa. Em 2019, realizou a estreia nacional de Trio for Clarinet, Viola and Piano, do compositor norte-americano Eric Sawyer, no Auditório Municipal do Seixal.

As três instrumentistas apresentam percursos artísticos consolidados. Ana Sofia Matos é membro fundador dos Clarinetes Ligature, formação com a qual participou em diversos festivais internacionais de clarinete, tendo trabalhado com músicos e maestros de referência. Catarina Gonçalves colabora regularmente com a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, a Orquestra Clássica do Sul e outras formações nacionais, tendo participado também em eventos internacionais no Luxemburgo e em Roterdão. Maria Isabel Mendonça, premiada em concursos nacionais de piano, apresentou-se como solista no Centro Cultural de Belém e desenvolve uma carreira que inclui a música de câmara, o acompanhamento musical e projetos de criação artística, nomeadamente o grupo Ningue Ningue, com dois álbuns editados.

Com uma presença crescente em festivais nacionais e internacionais, o Re:Flexus Trio tem vindo a afirmar-se pela dedicação à música contemporânea e pela divulgação de repertório menos frequente nas salas de concerto.

Os Moços da Viola Campaniça

Os Moços da Viola Campaniça

Os Moços da Viola Campaniça são um grupo de música tradicional alentejana formado em Castro Verde, em 2016. A formação identificada em apresentações públicas inclui Duarte Colaço, Guilherme Colaço, Miguel Gil, Miguel Guerreiro e Gabriel Costa. O grupo dedica-se à interpretação e divulgação do repertório ligado à viola campaniça e ao cancioneiro tradicional do Baixo Alentejo, levando a música da região a públicos dentro e fora do concelho.
O seu percurso tem incluído atuações em festivais e iniciativas de valorização da cultura alentejana, bem como apresentações fora de Portugal. Em 2023, representaram Castro Verde na Semana Cultural Alentejana da Casa do Alentejo de Toronto. Nesse mesmo ano, participaram numa criação com a harpista Frederica Campos, apresentada no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, no âmbito de uma parceria entre a BoCA e o Futurama. O projeto aproximou a viola campaniça e o cancioneiro alentejano da harpa, num encontro entre repertórios e sonoridades de origens distintas.

NOTAS DE PROGRAMA

Neste concerto, a música de câmara encontra-se com a tradição musical alentejana. As duas primeiras peças são interpretadas em conjunto pelo Re:flexus Trio – clarinete, viola de arco e piano – e pelos Moços da Viola, com a viola campaniça. O programa começa com melodias do cancioneiro regional e passa depois a duas obras escritas para a formação do trio. A mudança de repertório convida-nos a escutar como diferentes instrumentos e linguagens podem partilhar o mesmo espaço musical.

Na Várzea da Ribeirinha

Ó, águia, que vais tão alta

Bem podia a andorinha

Tradicional

As três modas pertencem ao património musical alentejano, transmitido e recriado por intérpretes e comunidades ao longo do tempo.
A interpretação conjunta aproxima a viola campaniça – instrumento profundamente ligado à identidade musical da região – das sonoridades do clarinete, da viola de arco e do piano. As modas são aqui ponto de partida para uma escuta partilhada entre tradição e música de câmara, memória coletiva e interpretação individual.

Aria a tre con variazione

Joly Braga Santos (1924–1988)

José Manuel Joly Braga Santos nasceu em Lisboa e iniciou os estudos musicais ainda criança. Formou-se no Conservatório Nacional, onde estudou violino, piano e composição, tendo sido aluno de Luís de Freitas Branco, uma das figuras centrais da música portuguesa da geração anterior. A relação entre ambos foi decisiva para a sua formação: Freitas Branco reconheceu-lhe cedo o talento e acompanhou-o como mestre. Joly Braga Santos viria a desenvolver uma carreira multifacetada como compositor, maestro, professor e crítico musical.
A sua obra abrange cerca de 110 títulos, entre música sinfónica, ópera, música coral e de câmara. É particularmente conhecido pelas seis sinfonias, quatro das quais escreveu ainda na juventude. Nelas, cruzou formas amplas da tradição sinfónica com influências da polifonia renascentista e da música tradicional portuguesa. Mais tarde, a sua linguagem incorporou recursos do modernismo europeu, incluindo maior cromatismo. Foi também um ativo divulgador de música contemporânea, maestro de várias orquestras e membro fundador da Juventude Musical Portuguesa. Em 1981, recebeu a Ordem de Santiago da Espada pelo mérito artístico.
Composta em 1984, Aria a tre con variazione pertence à sua produção de maturidade e foi escrita para clarinete, viola e piano. O título descreve a ideia que sustenta a obra: uma melodia de carácter cantabile apresentada e transformada ao longo de variações. Os três instrumentos participam numa conversa em que as linhas melódicas passam de uns para os outros, enquanto o piano contribui para o enquadramento harmónico e rítmico. A peça revela a atenção de Joly Braga Santos à expressividade e à cor instrumental, também presente na sua música de câmara.

Trio em Lá Maior, Op. 264

Carl Reinecke (1824–1910)

Carl Heinrich Carsten Reinecke nasceu em 1824, em Altona, então cidade independente e hoje parte de Hamburgo. Aprendeu música com o pai, professor, e revelou-se cedo como pianista: na adolescência já se apresentava em público e, em 1843, iniciou uma série de viagens de concerto. Em Leipzig, entrou em contacto com Felix Mendelssohn e Robert Schumann; mais tarde, trabalhou como pianista da corte em Copenhaga e ocupou cargos de ensino e direção musical em várias cidades alemãs.
A sua carreira ficou sobretudo ligada a Leipzig. Entre 1860 e 1895, dirigiu os concertos da Orquestra do Gewandhaus e, paralelamente, ensinou piano e composição no Conservatório de Leipzig, do qual foi diretor entre 1897 e 1902. Teve uma influência considerável como professor – entre os seus alunos contaram-se Edvard Grieg e Arthur Sullivan – e construiu um catálogo vasto, que inclui música orquestral, ópera, obras para piano e música de câmara. A sua escrita combina domínio formal e clareza com uma linguagem ligada à tradição romântica de Mendelssohn e Schumann. Morreu em Leipzig, em 1910.
Publicado em 1903, o Trio em Lá Maior, Op. 264 é uma das últimas composições de Reinecke. Nesse mesmo ano, aos 79 anos, o compositor apresentou a obra no Gewandhaus de Leipzig, ao piano, numa das suas derradeiras aparições públicas. Para clarinete, viola e piano, o trio revela o interesse de Reinecke por combinações instrumentais menos comuns.
A obra divide-se em quatro andamentos: Moderato. Allegro, Intermezzo. Moderato, Legende. Andante e Finale. Allegro moderato. O primeiro começa com uma introdução moderada antes de ganhar movimento; o Intermezzo mantém uma atmosfera mais recolhida e pastoral. No terceiro andamento, Legende, uma melodia lenta e expressiva ocupa o centro da peça. O Finale contrasta com os momentos anteriores, recuperando energia e movimento. Ao longo do trio, clarinete, viola e piano alternam entre diálogo próximo e contraste de timbres.